A estética do sublime em Kant: alguns apontamentos

Kant escreveu três Críticas, é na chamada “Terceira Crítica” ou “Crítica da faculdade do juízo” (2008) que encontramos o que poderia ser nomeado como uma Estética. Essa obra, ao contrário das duas outras Críticas, não tem um foco claro. Kant se propõe examinar nossa faculdade do julgamento e, ao assim fazer, seu pensamento parece caminhar por uma série de questões desmembradas em atalhos e caminhos divergentes. A Terceira Crítica, assim, trata de assuntos relacionados à ciência, à teleologia e, o que mais foi assinalado pela posteridade, à estética.

Kant chama os juízos estéticos de “julgamentos do gosto” e observa que, embora sejam baseados nos sentimentos subjetivos de um indivíduo, eles também reivindicam validade universal. Ora, a afirmação parece então paradoxal, na medida em que tenta conciliar subjetividade e universalidade, conceitos que são logicamente opostos. Para resolver essa aparente antinomia, Kant inicialmente procura diferenciar os sentimentos oriundos da experiência estética e os outros possíveis sentimentos. Nossos sentimentos sobre a beleza diferem dos nossos sentimentos sobre o prazer ou a bondade moral. A diferença fundamental é que os sentimentos sobre a beleza são desinteressados. Isso significa que eles são avaliados em si mesmo e não como meio para se atingir alguma coisa fora deles. Os sentimentos de prazer e da bondade moral necessitam a existência de seus objetos; já, os sentimentos estéticos não necessitam da existência de seus objetos, ou seja, eles são puras representações. Buscamos possuir objetos prazerosos e buscamos promover a bondade moral, mas simplesmente apreciamos a beleza, sem sentir vontade de encontrar algum uso para ela. Assim, os julgamentos de gosto, ou estéticos, são universais porque são desinteressados, ou seja, nossos desejos e necessidades individuais não entram em jogo ao apreciar a beleza. É por isso que podemos dizer que nossa resposta estética se aplica universalmente. O prazer estético vem do jogo livre entre nossa imaginação subjetiva e nossa compreensão objetiva ao percebermos um objeto. Essa síntese entre subjetividade e objetividade é uma proposta de toda a filosofia kantiana, a qual permite a Kant superar as contradições presentes tanto no empirismo de Hume como no idealismo de Berkeley.

Kant distingue dois tipos de experiências estéticas: o Belo e o Sublime. Quando comparamos as explicações de Kant para as duas experiências, podemos notar que a experiência do belo tem uma formulação clara e rigorosa, dado que ele a concebe como uma experiência desinteressada e imediata. Essa imediatez faz com que a experiência seja perfeitamente compreensível, já que é fácil experienciar a beleza de uma flor ou uma bela paisagem. Porém, a experiência do sublime mantém um certo ar de mistério. Como exemplo dessa experiência, Kant aponta para fenômenos da natureza como o mar agitado, as nuvens em uma tempestade, a avalanche em uma montanha de neve, entre outros. O próprio Kant exemplifica no §28 da Terceira Crítica da seguinte forma:

“Rochedos audazes sobressaindo-se por assim dizer ameaçadores, nuvens carregadas acumulando-se no céu, avançando com relâmpagos e estampidos, vulcões em sua inteira força destruidora, furacões com a devastação deixada para trás, o ilimitado oceano revolto, uma alta queda-d´água de um rio poderoso etc. tornam a nossa capacidade de resistência de uma pequenez insignificante em comparação com o seu poder”. (Kant, 2008, p. 107)

No campo da arte, ele fornece dois exemplos: as pirâmides do Egito e a Igreja de São Pedro. Todos os exemplos são experiências com objetos grandes, poderosos e esmagadores. Eles excedem nosso poder de imaginação por seu tamanho e força. Eles são quase assustadores, e nos fazem conscientes de nossas limitações físicas em comparação com eles. Esses fenômenos e objetos de arte são sublimes devido ao seu tamanho e força. Além disso, eles parecem exercer uma certa violência a nossa imaginação pelo fato de transcendê-la. Lembramos que para Kant a imaginação está ligada aos sentidos sendo uma resposta esquemática e significativa para eles.

Enquanto uma escultura grega ou uma flor são imediatamente experimentadas como belos, o movimento das nuvens em uma tempestade ou um edifício sólido e oponente não são imediatamente compreendidos como sublimes. Essas experiências obrigam um alargamento da imaginação na busca de uma totalidade que lhe dê significado. Essa totalidade não está imediatamente dada, ela precisa ser concebida pela imaginação por um processo cognitivo que Kant chama de juízo reflexionante. Assim, podemos dizer que a sublimidade não reside nos próprios objetos, mas na razão humana que lhes fornece uma totalidade significativa e aponta para a experiência de uma liberdade presente em nosso ser. Mais ainda, podemos inferir que a experiência do sublime supera a relação cognitiva e fundamental entre sujeito e objeto, fundando uma nova forma de habitar e perceber o mundo da vida.

Sublime seria então a experiência estética que temos quando estamos diante de um objeto e nossa natureza sensível sente suas limitações para representá-lo, devido a sua grandeza, sua força e seu poder ameaçador. Entretanto, diante desse mesmo objeto, nossa natureza racional sente sua superioridade, sua liberdade, sua ausência de restrições. Somos inferiores fisicamente diante desses objetos, porém nos elevamos moralmente, isto é, por meio de ideias. Fica desvelado então nessa experiência nossa dependência e pequenez enquanto seres sensíveis, mas também se desvela nossa liberdade enquanto seres racionais.

O Sublime seria então uma relação de ameaça diante de uma grandeza ou poder, nos quais pressentimos uma potência capaz de nos destruir. É essa relação diante de uma grandeza que distingue o Belo e o sublime.

Kant distingue duas possibilidades da experiência do sublime: (1) o sublime matemático; (2) o sublime dinâmico. Em ambas possibilidades, a experiência do sublime consiste em um sentimento de superioridade de nosso próprio poder da razão sobre a natureza, mas não sem antes participar de uma experiência de medo, terror ou incompreensão diante da infinidade. Essa razão é uma faculdade de natureza supersensível (2008, §28).
O que distingue os dois tipos de sublime, matemático e dinâmico, são diferenças de combinação, composição e conexão. Há dois critérios para distingui-los: homogeneidade e necessidade. Uma composição é homogênea e não necessária, enquanto uma conexão é exatamente o oposto: não homogêneo, mas necessária.

Um objeto é sublime de modo teórico na medida em que traz consigo a representação da infinitude para cuja apresentação a faculdade da imaginação não se sente à altura. Um objeto é sublime de modo prático na medida em que traz consigo a representação de um perigo que nossa força física não se sente capaz de vencer. Teórica seria então um sublime matemático, enquanto o sublime prático seria o dinâmico.

No caso do sublime matemático, o sentimento de superioridade da razão sobre a natureza assume a forma da superioridade da razão em relação à imaginação, concebida como a capacidade natural necessária para a apreensão sensorial, incluindo a apreensão das magnitudes empíricas das coisas. Temos essa experiência quando somos confrontados com algo tão grande que supera a capacidade da imaginação para compreendê-lo. Em tal situação, a imaginação se esforço para compreender o objeto de acordo com uma demanda da razão, mas não consegue fazê-lo.
Segundo Kant:
“[…] sublime é aquilo em comparação com o qual tudo o mais é pequeno […] Mais precisamente pelo fato de que em nossa faculdade da imaginação encontra-se uma aspiração ao progresso até o infinito, e em nossa razão, porém, uma pretensão à totalidade absoluta como a uma ideia real, mesmo aquela inadequação a esta ideia de nossa faculdade de avaliação da grandeza das coisas do mundo dos sentidos desperta o sentimento de uma faculdade suprassensível em nós…” (§ 25, 2008, p. 94).

O Sublime kantiano matemático é aquilo que é absolutamente grande, magnitudo, grandeza que precede a própria quantidade (quantitas), que é uma categoria do entendimento.

A possibilidade do sublime indica a potência de sermos capazes, por meio da razão, de pensar o infinito como um todo. Isso indica a existência de uma faculdade da mente que supera todos os padrões do sentido (§26, 2008. p.98). Como exemplo desse sublime matemático, Kant menciona as pirâmides no Egito e a Basílica de São Pedro Em Roma (§26, 208, pp.98/99). Entretanto, Kant assinala que os melhores e mais apropriados exemplos de Sublime são da Natureza, ou seja, coisas naturais cujo conceito não envolve a ideia de um propósito para sua existência. Os animais estão descartados por possuírem a ideia de função biológica e, portanto, terem um propósito para a existência.

No caso do sublime dinâmico, o sentido de superioridade da razão em relação à natureza torna-se mais direto e claro. Kant diz que consideramos a natureza como “dinamicamente sublime” quando a consideramos como “um poder que não tem domínio sobre nós” (§28). O sublime dinâmico se manifesta quando experimentamos as forças naturais como terríveis, porém, por estarmos em uma posição de segurança, não temos medo dessas forças. Nesta situação, o irresistível poder da natureza certamente nos torna consideráveis como seres naturais, reconhece a nossa impotência física, mas, ao mesmo tempo, revela uma capacidade de julgar-se como independente da natureza e de uma superioridade sobre a natureza “pela qual a humanidade em nossa pessoa permanece intacta mesmo que o ser humano se submeta a esse domínio” (§28, 2008, pp.109/110). Os exemplos de Kant incluem falésias penduradas (A beleza de cidadezinhas e aldeias penduradas em penhascos), nuvens de trovões, vulcões e furacões (§28, 2008, pp.111/112).
No  caso  dos  objetos  associados  ao  medo  e  ao  terror – daquilo,  portanto,  que  Kant denomina “sublime dinâmico” – é necessária alguma distância, uma certa posição de segurança  do  sujeito  para  que  a  experiência  estética  se  mantenha  possível.  Esse princípio geral, usualmente admitido como um consenso, comporta, entretanto, muitas nuances nos diferentes sistemas filosóficos do período, e dos intérpretes contemporâneos de Kant. A tese kantiana apresentada na Crítica da faculdade de juízo argumenta que o perigo deve ser apenas produzido na imaginação. Podemos comparar a experiência do Sublime como a de um espectador que assiste um espetáculo cheio de terror no teatro, ou tem uma noite de pesadelos. Ao final da peça de teatro, ou ao acordar do sono, ele se sente aliviado, pois o horror passou-se somente em sua imaginação. Tratava-se de uma representação. Porém isso não quer dizer que não houve a experiência do medo ou do terror. Ela aconteceu, porém num outro tempo, espaço, numa representação que assegurou ao espectador sua sobrevivência e segurança física. Entretanto, a experiência trouxe um conhecimento, um acréscimo existencial. Atravessá-la conduziu o espectador para a reflexão de aspectos importantes da vida, sua fragilidade diante de certas forças, mas sua capacidade de pensar e adquirir conhecimentos experienciais mesmo nos momentos terríveis pelos quais passou. É essa dimensão da experiência estética do sublime que leva Kant a chamá-la de juízos reflexivos, ou pertencentes à imaginação, sendo contrários dos juízos determinantes, os quais sempre desencadeiam uma ação no mundo, como ocorreria no caso de uma pessoa em meio a uma tempestade, furação ou desastres naturais.

Um dos aspectos mais interessantes do Sublime kantiano é sua capacidade heurística para explicar muitas das experiências da arte contemporânea. A experiência do Sublime é uma relação com um fenômeno que nem pode ser chamado de objeto. Não é uma relação entre um sujeito e um determinado objeto, mas a superação dessas duas categorias, pois no Sublime o suposto objeto absorve o sujeito que se perde nele, que vai além de sua individualidade rotineira e de suas formas de agir e pensar na cotidianidade. Nessa experiência o ordinário torna-se extraordinário, a experiência amena, um choque de grandes proporções, que conduz a imaginação para processos mentais criadores de novas totalidades que expliquem os fragmentos temporais.

 

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Tempestade – Sublime Dinâmico

 

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Penhascos – Sublime dinâmico

 

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Pirâmides de Gizé – Sublime matemático

 

 

São Paulo, dezembro de 2016
Professor Dr. Eduardo Cardoso Braga

 

Referências

BURKE, E. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo. Tradução de Enid Abreu Dobránszky. Campinas: UNICAMP, 1993.

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valerio Rohden e António Marques, 2 ed.,  Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

KANT, Immanuel. Critique of the Power of Judgment (The Cambridge Edition of the Works of Immanuel Kant), ed. Paul Guyer, trans. Paul Guyer and Eric Matthews, Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

SCHILLER, F. Textos sobre o belo, o sublime e o trágico. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1997.

Referências Secundárias

ABACI, U. “Kant’s Justified Dismissal of Artistic Sublimity”. Journal of Aesthetics and Art Criticism, v. 66, n. 3 (2008), pp. 237-251.

________. “Artistic Sublime Revisited: Reply to Robert Clewis”. Journal of Aesthetics and Art Criticism, v. 68, n. 2 (Spring, 2010), pp. 170-173.

CLEWIS, R. “A Case for Kantian Artistic Sublimity: A Response to Abaci”. Journal of Aesthetics and Art Criticism, v. 68, n. 2 (Spring, 2010), pp. 167-170.

FIGUEIREDO, Virginia. O Sublime explicado às crianças. Trans/Form/Ação [online]. 2011, vol.34, n.spe2 [cited  2018-08-02], pp.35-56.

GUYER, P. “Kant’s Conception of Fine Art”. Journal of Aesthetics and Art Criticism, v. 52, n. 3 (Summer, 1994), pp. 275-285.

________. “The Psychology of Kant’s Aesthetics”. Studies In History and Philosophy of Science, v. 39, n. 4 (Jan, 2009), pp. 483-94.

RYAN, V. L. “The Physiological Sublime: Burke’s Critique of Reason”. Journal of the History of Ideas, v. 62, n. 2 (Apr, 2001), pp. 265-279.

VANDENABEELE, B. “Beauty, Disinterested Pleasure, and Universal Communicability: Kant’s Response to Burke”. Kant-Studien, v. 103, n. 2 (2012), pp. 207-233.

WICKS, R. “Kant on Fine Art: Artistic Sublimity Shaped by Beauty”. Journal of Aesthetics and Art Criticism, v. 53, n. 2 (Spring, 1995), pp. 189-193.

NOTES ON THE AESTHETIC CONCEPT SUBLIME

Caspar David Friedrich,

Caspar David Friedrich, “Wanderer above the Sea of Fog”, 1818

The aesthetic concept of sublime, as Kant formulated from Burke, seems to overcome itself aesthetic, in that the Form stops fulfill major role in the experiment. It is then a transcendental and cognitive experience, in which the imagination in free play of faculties, builds a possible meaning and this activity reveals the dimension of human freedom.

The philosophical reflection on the aesthetic experience permeates virtually all Western philosophy from Plato to new philosophical trends. In this long process, there were historical moments of intense reflection on the nature of that experience and moments of despair which was reached as to declare the impossibility of any logical and consistent statement on this subjective experience. Also the relationship between art and aesthetics have differences over this story. Sometimes the art was the privileged place, but unique and essential, aesthetics, sometimes played a secondary role and less on the definition and understanding of the aesthetic experience. Contemporaneously aesthetics was seriously questioned by the conceptual art as defining experience of concept art. The remoteness and even refusal of aesthetic possibilities opened by conceptual art in a poetic, serious and consistent, which is anchored in the epistemic values of art, conceptualizing it as a process and idea rather than objects or artifacts with formal properties. Today, contemporaneously, the philosophical study of the aesthetic experience reborn of its pervasive presence in everyday life. It is an aesthetic of everyday life, objects, information and design of consumer culture and identity of small social groups. Again, we are when art is no longer the privileged object of aesthetic reflection.

In Kant, we have a two aesthetic to the Beautiful, which can be based on the everyday aesthetic studies, and the Sublime, in which appears an overcoming of aesthetics toward a metaphysical experience, in other words, whose meaning is beyond the senses and sensory experiences. Kant was interested in the aesthetic concept of the sublime. Following its methodology and objectives, it was for him to legitimize this concept, that is, under what circumstances I can legitimately try Sublime. Kant distinguished two forms of sublime: (1) the mathematical, simply sublime, immense and located as experience in Beauty threshold when it looses its proportion and becomes infinite, without proportion, without form; (2) the dynamic sublime, informal, wild, terrifying. Both it and the other beyond man, being in the first instance by the imagination and in the second, physical integrity, revealing that man a spiritual dimension. Take for example the mathematical sublime, which results in a failure of imagination. To illustrate this failure, Kant evokes Savary, in his “Lettres d’Egypte,” explains the difficulty of contemplating the pyramids a fair distance. Descartes had already established that there is a correct distance from the subject to the object so that it can be known. Kant points out that feeling of powerlessness your imagination to present the whole. For the pyramids, this is only possible at a great distance from the object, whose consequence is the loss of perceived detail, the texture of the elements that make up these pyramids. Imagination reaches its maximum and the effort to overcome, chasm about herself, plunging a moving satisfaction. Suffering and satisfaction are the two indices of the Kantian sublime. However to legitimize the sublime, Kant analysis of a transcendental point of view. The source of suffering and satisfaction, the sublime is not only the experience that cannot be imagined that exceeds the capacity of the imagination, but also the experience that reveals the human condition. The experience of the sublime confronts us an infinite, something of the noumenon of the order, i.e., the intellectual conception of a thing as it is in itself, not as it is known through perception. This happens not because nature is appreciated afraid the sublime experience in our aesthetic judgment, but because it causes in us the strength that we are very, observing how small things that disturb us and affect, such as goods, health and life. The sublime is then is the relationship between what I see and what exceeds me, the relationship between sensible and intelligible, between aesthetics and philosophy. This transcendental experience inspires a kind of respect before this force that we are own and that Kant names it as freedom.
Schiller under the influence of Kant defines summarizes the sublime experience. We named sublime to an object when we are faced with their representation and our physical nature feels its limits, while our rational nature feels their superiority, their independence all limits. Then it is a subject on which we are physically weaker, while morally rise above it the ability to produce ideas. Examples of aesthetic experience of the sublime: the infinite, which has no form, no diagrams, rough seas, starry skies, immense dimensions of objects, etc. The phenomenon of nature that can threaten us, tsunamis, storms, hurricanes, avalanches. In the latter case, the observer should feel like a safe place to observe the phenomenon. Are all objects and phenomenon that cause us fear and pleasure, that exceed the possibilities of our imagination. The Kantian sublime opens the possibilities for the art of the twentieth century goes beyond the aesthetic experience based on the shape and reach a rational, an idea that goes beyond the sensory dimension. A notable example is the conceptual work of Walter de Maria “Vertical Earth Kilometer”. It is a public and permanent urban sculpture, but totally the opposite. We cannot see it; just imagine it from a small sensory index. It consists of a bronze stick five feet in diameter that is submerged in the ground, in the basement of Friedrichsplatz Park, opposite the Kunsthalle Fridericianum in the German city of Kassel. The work takes shape as an idea that excites our imagination to represent it. But we can never be sure that our imagination properly represents the object. We stayed in uncertainty. An experience that is a mixture of pleasure, the excited imagination, and frustration, uncertainty of mental representation. In other words, a sublime experience which points beyond the formal aesthetic.

Walter de Maria,

Walter De Maria’s Vertical Earth Kilometer

References

Burke, Edmund Burke (1729–1797). On the Sublime and Beautiful. The Harvard Classics. 1909–14.

Kant; Guyer, P., (ed.), 2000, Critique of the Power of Judgment, Cambridge: Cambridge University Press.

Lyotard, Jean-François; Elizabeth Rottenberg (Translator), 1994. Lessons on the Analytic of the Sublime: Kant’s Critique of Judgment. Meridian. Stanford University Press. February.

Schiller, Friedrich, 1967. On the Aesthetic Education of Man in a Series of Letters, edited and trans. by Elizabeth M. Wikinson and L. A. Willoughby. Oxford: Oxford University Press.

Ph.D. Eduardo Cardoso Braga
Setembro de 2015

Apontamentos sobre o conceito estético de sublime

Caspar David Friedrich,

Caspar David Friedrich, “Wanderer above the Sea of Fog”, 1818

A reflexão filosófica sobre a experiência estética permeia praticamente toda a filosofia ocidental de Platão às novas tendências filosóficas. Nesse longo processo houve momentos históricos de intensa reflexão sobre a natureza dessa experiência e momentos de desespero nos quais chegou-se mesmo a declarar a impossibilidade de qualquer declaração lógica e consistente sobre essa experiência subjetiva. Também as relações entre a arte e a estética tiveram diferenças ao longo dessa história. Por vezes a arte foi o lugar privilegiado, senão único e essencial, da estética, por vezes desempenhou um papel secundário e menor na definição e compreensão da experiência estética. Contemporaneamente a estética foi seriamente questionada pela arte conceitual enquanto experiência definidora do conceito de arte. O afastamento e mesmo recusa da estética pela arte conceitual abriu possibilidades de uma poética, séria e consistente, que se ancora no valores epistêmicos da arte, conceituando-a como processo e ideia em vez de objetos ou artefatos com propriedades formais.
Hoje, contemporaneamente, os estudos filosóficos sobre a experiência estética renasceram pela sua presença pervasiva no cotidiano. Trata-se de uma estética do dia a dia, dos objetos, informações e design, da cultura do consumo e da identidade dos pequenos grupos sociais. Novamente estamos num momento no qual a arte não é mais o objeto privilegiado da reflexão estética.

Em Kant temos duas estéticas a do Belo, na qual pode-se basear os estudos da estética do cotidiano, e a do Sublime, no qual aparece uma superação da estética em direção a uma experiência metafísica, ou seja, cujo significado está além dos sentidos e das experiências sensoriais.

Kant se interessou pelo conceito estético de Sublime. Seguindo sua metodologia e objetivos, tratava-se para ele de legitimar esse conceito, ou seja, em quais circunstâncias eu posso legitimamente experimentar o Sublime. Kant distingui duas formas de sublime: (1) o sublime matemático, simples, imenso e situado enquanto experiência no limiar do Belo, quando este perde sua proporção e torna-se infinito, sem proporção, sem Forma; (2) o sublime dinâmico, informal, selvagem, terrificante. Tanto um como o outro ultrapassam o homem, sendo no primeiro caso pela imaginação e no segundo, pela integridade física, revelando a esse homem sua dimensão espiritual. Tomemos por exemplo o sublime matemático que se traduz por um fracasso da imaginação. Para ilustrar esse fracasso, Kant evoca Savary que, em suas “Lettres d’Egypte”, explica a dificuldade de contemplar as pirâmides a uma justa distância. Descartes já havia estabelecido que existe uma correta distância do sujeito em relação ao objeto para que este possa ser conhecido. Kant assinala esse sentimento de impotência de sua imaginação para apresentar o todo. No caso das pirâmides, isso somente é possível a uma grande distância do objeto, cuja consequência é a perda da percepção do detalhe, da textura dos elementos que compõem essas pirâmides. A imaginação atinge seu máximo e no esforço para se ultrapassar, ela se abismo sobre si mesma, mergulhando numa satisfação comovente. Sofrimento e satisfação são os dois índices do sublime kantiano. Entretanto para legitimar o sublime, Kant o analise de um ponto de vista transcendental. Fonte de sofrimento e satisfação, o sublime não é somente a experiência que não pode ser imaginada, que ultrapassa a capacidade da imaginação, mas é também a experiência que nos revela nossa condição humana. A experiência do sublime nos coloca diante de um infinito, alguma coisa da ordem do noumenon, ou seja, a concepção intelectual de uma coisa como ela é em si mesma, não como é conhecido através da percepção. Isto se dá não porque a natureza é apreciada com medo na experiência do sublime em nosso julgamento estético, mas porque provoca em nós a força, que nos é própria, de observar como pequenos as coisas que nos inquietam e afetam, como os bens, a saúde e a vida. O sublime se constitui então na relação entre o que percebo e o que me ultrapassa, na relação entre sensível e inteligível, entre estética e filosofia. Essa experiência transcendental inspira uma espécie de respeito diante dessa força que nos é própria e que Kant a nomeia como liberdade.
Schiller sob a influência de Kant define de forma sintética a experiência do sublime. Nomeamos sublime a um objeto quando estamos diante de sua representação e nossa natureza física sente seus limites, ao mesmo tempo que nossa natureza racional sente sua superioridade, sua independência de todos os limites. Trata-se então de um objeto diante do qual somos fisicamente mais fracos, enquanto que moralmente nos elevamos acima dele pela capacidade de produzir ideias. Exemplos de experiências estéticas do sublime: o infinito, o que não possui forma, nem esquemas, o mar agitado, o céu estrelado, objetos de dimensões imensas, etc. Os fenômenos da natureza que podem nos ameaçar, tsunamis, tempestades, furações, avalanches. Nesse último caso, o observador deverá se sentir em um lugar seguro ao observar os fenômenos. São todos objetos e fenômenos que nos provocam medo e prazer, que superam as possibilidades de nossa imaginação. O sublime kantiano abre as possibilidades para a arte do século XX ir além da experiência estética baseada na Forma e atingir uma racionalidade, uma ideia que ultrapassa a dimensão sensorial. Um exemplo notável é a obra conceitual de Walter de Maria “Vertical Earth Kilometer”. Trata-se de uma escultura urbana pública e permanente, mas totalmente ao inverso. Não podemos vê-la; apenas imaginá-la a partir de um pequeno índice sensorial. Ela consiste de uma vara de bronze de cinco centímetros de diâmetro que se submerge na terra, no subsolo do Friedrichsplatz Park, em frente ao Kunsthalle Fridericianum, na cidade alemã de Kassel. O trabalho se configura como uma ideia que excita nossa imaginação para representá-la. Porém nunca poderemos ter a certeza que nossa imaginação representará corretamente o objeto. Ficamos na incerteza. Uma experiência que é um misto de prazer, pela imaginação excitada, e frustação, pela incerteza da representação mental. Em outros termos, uma experiência sublime que aponta para além da estética formal.

Walter de Maria,

Walter De Maria’s Vertical Earth Kilometer

Referências
BURKE, Edmund. Uma Investigação Filosófica sobre a Origem de Nossas Idéias do Sublime e do Belo. Campinas: Papirus, 1993.

KANT, Crítica da faculdade do juízo. Rio/São Paulo: Forense, 1993.

LYOTARD, Jean-François. Lições sobre a Analítica do Sublime. Campinas: Papirus, 1993.

SCHILLER, Friedrich : Sobre a educação estética do ser humano numa série de cartas e outros textos, Ed. IN-CM, s/d, Lisboa.

Dr. Eduardo Cardoso Braga
Setembro de 2015