Arte e autonomia: a contribuição decisiva da modernidade

O conceito de gênio foi inicialmente formulado pelo Iluminismo e desenvolvido posteriormente no Idealismo alemão. Sua função era explicar a natureza diferencial da arte quando comparada ao mundo ou natureza. A partir de suas origens e desenvolvimentos, este conceito tomou dois rumos contraditórios. De um lado postulou-se um irracionalismo vinculado ao poder que o artista-gênio possui. De outro lado, fortaleceu-se o conceito de uma arte autônoma, ou seja, possuidora de suas próprias regras quando comparada com os fenômenos da natureza e mesmo com as necessidades da sociedade. Para a modernidade, a defesa da autonomia da obra de arte engendrava a possibilidade de uma unidade entre o subjetivo e o objetivo, ou seja, a defesa de um juízo estético que não representava simplesmente uma questão de gosto pessoal. A autonomia da arte implica necessariamente que existem critérios para se julgar a qualidade e importância das obras de arte. Assim, a distinção entre gêneros ou repertórios “superiores” e “inferiores” é possível graças aos critérios estabelecidos pela autonomia da arte, os quais possibilitam os meios avaliativos de sua própria atividade.

Já podemos ver em Kant e Hegel um pensamento contrário ao irracionalismo do subjetivismo absoluto. Kant formulou que o sentimento agradável do belo não possui uma base conceitual, ou seja, não é possível atingi-lo e discuti-lo por meio de argumentos lógicos. Porém isso não leva ao irracionalismo na medida em que para Kant esse sentimento estético possui a propriedade de ser compartilhado e validado por meio de um grupo de pessoas que sintam as mesmas certezas acerca da beleza. Portanto, “não-conceitual” não significa que o sentimento estético passe a ser propriedade de um juízo totalmente subjetivo. Em Kant, a subjetividade do sentimento estético é mediada pela comunicabilidade e reconhecimento desse sentimento por outros membros da mesma comunidade.

Hegel inseriu a arte como parte orgânica e importante de seu sistema filosófico. Ele combateu as tendências românticas que filiavam a arte como um produto de uma imaginação intensa, anárquica e indisciplinada da intuição e dos sentidos. Imaginação que não poderia nunca ser enquadrada por um pensamento abstrato e racional. Contra os inimigos da razão, Hegel pensa a arte como algo que possui a verdade e, por isso mesmo, passível de ser pensada com a Razão. Hegel define a arte como manifestação sensível do Espírito. Esse aparecer do Espírito de forma sensível não pode ser confundido como uma aparição qualquer. Para a Hegel, a arte é uma representação que nos conduz a uma realidade diferente de nosso cotidiano. Neste, a aparência esconde uma essência. Já na arte, a aparência desvela uma essência que lhe é intrínseca. Assim a arte nos fornece uma realidade autônoma mais alta e verídica.

Na tradição kantiana e principalmente hegeliana, a arte é uma atividade que preserva sua autonomia, sendo concebida como parte de um sistema de pensamento que estabelece critérios para o julgamento estético.

A autonomia da arte é o que a preserva do relativismo subjetivista exacerbado que a conduz para um vale-tudo inviabilizador de qualquer julgamento que a qualifique. Esse puro subjetivismo é um verdadeiro “assalto à razão” que impossibilita qualquer tipo de acordo comum. Ele está fortemente presente nas tendências pós-modernas que negam o modernismo e sua busca de uma síntese entre subjetividade e objetividade.

Assim, torna-se vital a defesa da forma do objeto artístico e sua autonomia, impossibilitando dessa maneira a diluição da autonomia da arte. Essa autonomia não exclui a possibilidade de se encontrar estruturas homólogas entre a arte e a sociedade; já que a arte é uma atividade que parte da vida cotidiana para, em seguida, a ela retornar, produzindo nesse movimento circular e reiterativo uma elevação na consciência sensível dos homens, ou seja, uma verdadeira catarse. Essa elevação não é um devaneio ou um tipo de fuga. Ela se contrapõe a vivência fragmentária do cotidiano enriquecendo o homem que, por meio da arte, faz a passagem do que é concreto para o que é abstrato e vice-versa. A arte, portanto, possibilita a transcendência da fragmentação, engendrada pelas relações meramente mercantis, produzindo um contínuo enriquecimento espiritual (da consciência) da humanidade.

A arte, então, figura, com seus próprios meios, a realidade que se apresenta sob a forma caótica da vida cotidiana. Essa figuração se apresenta de modo homogêneo confrontando-se com a fragmentação da experiência cotidiana e possibilitando, assim, uma ruptura perceptiva marcada pela heterogeneidade e superficialidade dos fenômenos do dia-a-dia que ocultam a verdadeira essência. Trata-se de uma re-apresentação do mundo como uma segunda imediaticidade, por isso a necessária autonomia da arte em relação a esse mundo. O caráter fragmentado da realidade reaparece, por meio da forma artística, transfigurado como uma nova imediaticidade, ou seja, uma unidade sensível de essência e aparência. A alienação, o estranhamento, a indiferença e agressividade do mundo são transformadas na arte num para-si, ou seja, um mundo em conformidade com o humano.

Isso é possível graças ao trabalho do artista, seu talento ou genialidade, que concentrou todas as determinações da realidade em uma totalidade, em um mundo próprio. Ocorre então no receptor, ou fruidor, da arte uma suspensão de sua cotidianidade singular, elevando-o da subjetividade para um campo objetivo, ou seja, do singular para o universal. Esse movimento próprio da arte, ou seja, o movimento de ruptura e retorno ao cotidiano somente pode ser experienciado na medida em que a arte tenha um alto grau de autonomia em relação a esse cotidiano, não sendo determinada, nem direcionada por necessidades cotidianas e subjetivas. A autonomia da arte exige que ela pertença ao reino da liberdade e não da necessidade. Enfim, a arte não pode ser totalmente diluída na vida cotidiana. Sua autonomia é condição de seu caráter negativo ou elevador em relação à fragmentação e alienação das vivências cotidianas contemporâneas. Assim, contrário às posturas pós-modernas que transformam a arte numa decoração social, a modernidade, com a autonomia da arte, a torna absolutamente necessária para o processo de superação da alienação, transformando o mundo num lugar habitável para o homem e todas as formas de vida.

Prof. Dr. Eduardo Cardoso Braga
São Paulo 08 de agosto de 2011

Kant’s aesthetics and the beauty of bodies sexualized

Kant characterizes the aesthetic experience as “disinterested contemplation” and “no concept” . But the whole experience of beauty would necessarily be “disinterested”? And the beauty of sexualized bodies, in which we have engaged an interest in sexual satisfaction? And the perverse need to meet the culturally imposed standards and rules for obtaining a beautiful body? These are all questions that Kantian aesthetics has an answer.

Some theories base their aesthetic experience in some kind of biological tied to experiences of pleasure, pain avoidance and conservation. However, we must remember that there is a tradition that fuses the aesthetic experience without using any biological question. We must also remember that the generation that lived through Nazism has always sought to relieve as much ethics as aesthetics of explanations with content biologists. In fact, Nazism has always valued theories that made wide use of the concept of race based on biological. Darwin insisted, throughout his work, the separation between the theory of evolution and ethics. He clearly foresaw the dangers of an uncritical application of evolutionary theory to the field of ethics. Nature does not authorize such a logical way. Also, the end of life, Darwin complained that he was suffering from a certain aesthetic dullness due to the need to observe nature from a scientific point of view with its rigorous logical and endorsed interested.

Plato had already addressed the issue of sexualized bodies and beautiful in his Symposium. He will propose an ascesis a lift that goes from the desire of the bodies to the empirical abstraction of beauty. The force of Eros draws us to the beautiful bodies to satisfy a sexual need. But these natural beauties opposed to one another when the need to generate a larger and abstract beauty. So many beautiful bodies in their only singularities are fine for participating in this largest and abstract beauty. The very word “abstract” has the sense to separate. Thus, we can separate the concept of beauty as their empirical expressions. The process of ascesis would work as follow: first admire and desire a certain body that seems fine. I see that same beauty in other bodies that cause me the same desires. From this multiplicity, a reflection reach intellectual beauty, which is an abstraction. Thus, beauty is not in the bodies, but one concept that is embodied in the multiplicity of bodies.

The Kantian solution is different with Plato, although both proposals do not appeal to any kind of biology. In § 16 of the Critique of Judgment, Kant will distinguish two kinds of beauty: free beauty (pulchritudo vaga) and adherent beauty (pulchritude adhaerens) or, in other words, a pure beauty and a beauty dependent. For Malcolm Budd (1998) these two kinds of beauty are based on two different kinds of trial. A trial of beauty is a free trial natural (pure). Already, a trial is a trial dependent beauty complex consisting of a pure trial followed by an evaluation of the object to satisfy some need of the subject, or fit some sort of pattern. Thus, the pure beauty does not presuppose any concept, or standard, which imposes a “should be” the object. Since the dependent beauty presupposes a concept, or pattern, and the need to meet this standard subject to be considered beautiful. This second kind of beauty Kant calls the beauty of adhering exactly to the necessity of adhering to an object concept to become beautiful, becoming a beauty Guests. They are objects that are under the concept of a particular purpose.

Kant exemplifies with flowers, which he calls “natural beauties free. ” But a botanist, for example, can add to this beauty a free trial that compares the shape and color of a flower to a function, for example, reproduction. Currently we free to enjoy the beauty and pure, to compare the shape and color to a concept or a specific purpose. It is the excessive application of cognitive operation that Darwin responsible for their aesthetic dullness.

Kant gives other examples: birds (the parrot, the hummingbird, the bird of paradise), a portion of the sea crustaceans are examples of natural beauty pure beauty or for themselves. Kant also provides examples of pure cultural beauties: “designs à la grecque”, foliage for borders or on wallpaper, etc. in themselves mean nothing, are not bound to any standards of representation and are free beauties. Music can also be a pure beauty, they do not seek to represent or describe some event.

Thus, the distinction between free beauty (pure) and adherent beauty (conditioned) shows that by recognizing the first, gives it a “court of pure taste, ” and second, a “court of taste applied. ” Naturally, the pure aesthetic judgments has more value than aesthetic judgment-conditioning. It is this quest for purity, the fundamental aesthetics of Kant, who took much of modernity as a project.

Bodies, whose beauty attracts us sexually, are therefore conditioned beauties for two reasons. First by mating the pure beauty of a court order, which is the possible fulfillment of a desire, therefore an interest. Second, because beauties are conditioned to a certain pattern, in which case contemporary, it becomes a somewhat perverse beauty and oppressive by the need to fit this pattern. For the Kantian aesthetic, then, aesthetic judgments are entirely independent of the concept of perfection.

The beauty is still a conditional kind of beauty, but the second order, or lower, when compared to pure beauty. Furthermore, by adhering excessively to the beauty Guests may end dulling the possibility of achieving the purity of the mind likes disinterested and independent standards.

References

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valerio  Rohden e António Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

BUDD, M. “Delight in the Natural World: Kant on the Aesthetic Appreciation of Natura: Part I: Natural Beaty”. In: British Journal of Aesthetics, 38 (1998), pp. 1-18.

A estética kantiana e a beleza dos corpos sensualizados

Kant caracteriza a experiência estética como “contemplação desinteressada” e “sem conceito”. Mas, toda a experiência da beleza teria que ser necessariamente “desinteressada”? E a beleza sexualizada dos corpos, na qual temos acoplado um interesse de satisfação sexual? E a perversa necessidade de satisfazer a padrões e regras impostas culturalmente para a obtenção de um corpo belo? São todas questões que a estética kantiana tem uma resposta.
Algumas teorias estéticas fundamentam sua experiência em algum tipo de biologismo ligado às experiências de prazer, fuga da dor e preservação da espécie. Entretanto, é preciso lembrar que existe uma tradição que funda a experiência estética sem se utilizar de nenhuma questão biológica. Devemos lembrar também que a geração que viveu o nazismo sempre procurou desvincular tanto a ética como a estética de explicações com conteúdos biologistas. De fato, o nazismo sempre valorizou teorias que fizeram amplo uso do conceito de raça fundamentada no biologismo. Darwin insistiu, ao longo de toda a sua obra, na separação entre a teoria da evolução e a ética. Ele claramente previu os perigos de uma aplicação acrítica da teoria da evolução ao campo ético. A natureza não autoriza uma tal passagem lógica. Também, ao fim da vida, Darwin reclamou que estava sofrendo de um certo embotamento estético devido à necessidade de observar a natureza de um ponto de vista científico com seu rigor lógico e visada interessada.
Platão já havia tratado da questão dos corpos belos e sensualizados em sua obra Banquete. Ele vai propor uma ascese, uma elevação que vai do desejo dos corpos empíricos até à abstração da beleza. É a força de Eros que nos atrai para os corpos belos no sentido de satisfazer uma necessidade sexual. Porém essas belezas singulares quando contrapostas umas às outras geram a necessidade de uma beleza maior e abstrata. Assim os vários corpos belos em suas singularidades somente são belos por participarem dessa beleza maior e abstrata. A própria palavra “abstrair” tem o sentido de separar. Assim, podemos separar a beleza enquanto conceito de suas expressões empíricas. O processo de ascese funcionaria da seguinte forma: primeiro admiro e desejo um determinado corpo que me parece belo. Vejo essa mesma beleza em outros corpos que me provocam os mesmos desejos. A partir dessa multiplicidade, por uma reflexão intelectual alcanço a beleza, que é uma abstração. Assim, a beleza não está nos corpos, mas no conceito uno que se materializa nas multiplicidades dos corpos.
A solução kantiana é diferente da platônica, embora em ambas propostas não se apele para nenhum tipo de biologismo. No §16 da Crítica da faculdade do juízo, Kant vai diferenciar duas espécies de beleza: a beleza livre (pulchritudo vaga) e a beleza aderente (pulchritudo adhaerens), ou, em outros termos, uma beleza pura e uma beleza dependente. Para Malcolm Budd (1998) estas duas espécies de beleza estão fundamentadas em duas espécies diferentes de julgamento. Um julgamento de beleza livre é um julgamento singular (puro). Já, um julgamento de beleza dependente é um julgamento complexo composto por um julgamento puro seguido de uma avaliação do objeto no sentido de satisfazer alguma necessidade do sujeito, ou se adequar a algum tipo de padrão. Assim, a beleza pura não pressupõe nenhum conceito, ou padrão, o qual imponha um “dever-ser” ao objeto. Já a beleza dependente pressupõe um conceito, ou padrão, e a necessidade do objeto satisfazer esse padrão para ser considerado belo. Essa segunda espécie de beleza Kant a chama de beleza aderente exatamente pela necessidade do objeto aderir a um conceito para se tornar belo, tornando-se uma beleza condicionada. São objetos que estão sob o conceito de um fim particular.
Kant exemplifica com as flores, as quais chama de “belezas naturais livres”. Porém um botânico, por exemplo, pode acrescentar a essa beleza livre um juízo que compara a forma e cor de uma flor a uma função, por exemplo, reprodutora. Nesse momento deixamos de fruir a beleza livre e pura, para comparar a forma e a cor a um conceito ou a um fim determinado. É a aplicação excessiva dessa operação cognitiva que Darwin responsabiliza pelo seu embotamento estético.
Kant fornece outros exemplos: pássaros (o papagaio, o colibri, a ave-do-paraíso), uma porção de crustáceos do mar são exemplos naturais de belezas puras, ou belezas por si. Kant também fornece exemplos de belezas culturais puras: desenhos à la grecque, a folhagem para molduras ou sobre papel de parede, etc., por si não representam nada, não estão condicionadas a nenhum padrão de representação e são belezas livres. A música também pode ser uma beleza pura, desde que não procure representar ou narrar algum acontecimento.
Assim, pela distinção entre beleza livre (pura) e beleza aderente (condicionada) mostra-se que ao reconhecer a primeira, se profere um “juízo de gosto puro”, e a segunda, um “juízo de gosto aplicado”. Naturalmente que o juízo estético puro tem mais valor que o juízo estético condicionado. É essa busca da pureza, fundamental na estética de Kant, que boa parte da modernidade assumiu como projeto.
Corpos, cuja beleza nos atrai sexualmente, são, portanto, belezas condicionadas por duas razões. Primeiro por se acoplar ao juízo de beleza pura uma finalidade, que é a possível satisfação de um desejo, portanto de um interesse. Segundo, porque são belezas condicionadas a um determinado padrão, que no caso contemporâneo, torna-se um tipo de beleza perversa e opressora pela necessidade de se adequar a esse padrão. Para a estética kantiana, então, o juízo estético é totalmente independente do conceito de perfeição.
A beleza condicionada continua sendo um tipo de beleza, porém de segunda ordem, ou inferior, quando comparada à beleza pura. Além disso, ao aderir-se excessivamente à beleza condicionada pode-se acabar embotando a possibilidade de se alcançar a pureza do juízo de gosto desinteressado e independente de padrões.

Agradecimento: Mônica Ramos Tamonca (@tamonca) pela proposição da questão.

Referências
KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valerio  Rohden e António Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
BUDD, M. “Delight in the Natural World: Kant on the Aesthetic Appreciation of Natura: Part I: Natural Beaty”. In: British Journal of Aesthetics, 38 (1998), pp. 1-18.

As características do julgamento acerca do belo segundo Kant

Kant escreveu três críticas dividindo o conhecimento nos seus três grandes campos: epistemologia (teoria do conhecimento), ética (teoria do comportamento) e estética (teoria do belo). Para cada um desses campos, ele escreveu uma Crítica (investigação). Assim teríamos: (1) Crítica da razão pura, tratando das questões do conhecimento, da epistemologia; (2) Crítica da razão prática, tratando das questões éticas; (3) Crítica da faculdade do juízo, tratando das questões estéticas, ou seja, nossos julgamentos acerca do belo e do sublime.
Kant inicia a Crítica da faculdade do juízo procurando estabelecer a especificidade do julgamento estéticos quando comparado a outros tipos de julgamentos. Essa reflexão, ele a chamou de “analítica da beleza” e a dividiu em quatro momentos. Faremos uma análise desses quatro momentos procurando explicá-los em seus movimentos conceituais e suas idéias essências.
O Primeiro Momento compreende os parágrafos de um a seis (§ 1-6). Neles, Kant afirma que os julgamentos acerca da beleza estão baseados em sentimentos de prazer. Entretanto, é uma espécie muito particular de prazer. Trata-se de um “prazer desinteressado”. Isto significa que o sujeito que faz um julgamento estético sobre um objeto não tem nenhuma necessidade de possuir ou consumir esse objeto, ou seja, o objeto não desperta qualquer desejo no sujeito que o contempla.
Também os juízos baseados no sentimento de beleza se distinguem dos juízos cognitivos, os quais são determinados pelas “sensações objetivas” como a percepção de que as folhas de uma árvore são verdes. Nos juízos cognitivos são associadas propriedades às substâncias. Por exemplo, o verde à folha da árvore. Eles são passíveis de serem testados em sua veracidade. Já quando emito um juízo acerca da beleza da forma de uma folha ou de uma determinada coloração não estou associando propriedades e substâncias. Estou comunicando um sentimento derivado de uma determinada sensação.
O fato dos julgamentos acerca da beleza serem baseados em um sentimento desinteressado os distingue também daqueles julgamentos baseados em interesses ou desejos. Juízos acerca de um gosto estão ligado a um desejo  e produzem um sentimento de agradável que não é desinteressado, pois ele engendra o desejo de possuir o objeto ou de usufrui-lo. Então os juízos acerca da beleza são baseados em sentimentos agradáveis, porém se distinguem daqueles sentimentos agradáveis que possuem alguma relação de desejo ou instrumental com o objeto qualificado de belo. Exemplos mais comuns de juízos de gosto interessados são aqueles acerca de comida ou bebida, nos quais o desejo de posse ou consumo do objeto está na essência do próprio juízo.
Na estética moderna houve muitas críticas acerca do conceito kantiano que caracteriza o julgamento estético como desinteressado. Muitos consideram até impossível o surgimento de um tal juízo. Outros alegam que esse conceito estético tornaria a arte algo muito elevado, distante da vida cotidiana e impossibilitando o prazer estético em objetos utilitários do dia-a-dia. Entretanto, recentemente no âmbito da estética ambiental, voltou-se a se utilizar o conceito de “prazer desinteressado” para caracterizar um tipo de relacionamento estético com a Natureza. Esse relacionamento estético estaria em antítese com um relacionamento interessado, ou instrumental, no qual a natureza é apenas entendida como um fim para a satisfação das necessidades humanas produzidas pela sociedade de consumo.
Também, para Kant, os juízos acerca do belo se diferenciam dos juízos de caráter moral ou ético, ou seja, juízos acerca do Bem e do Mal. Nesses últimos está sempre presente um interesse finalista. Espera-se que o uso do objeto proporcione um fim almejado, alcançando um bem ou evitando um mal.
Se no primeiro momento Kant distinguiu os juízos estéticos dos juízos interessados e juízos morais, no Segundo Momento (§§2-9) trata-se de fornecer uma dimensão “universal” para os juízos acerca da beleza, retirando-os da total subjetividade. Assim, ao fazer um julgamento sobre a beleza de algum objeto pretendemos que todos possam perceber essa beleza e compartilhar do mesmo sentimento. Entretanto, a universalidade do juízo acerca da beleza não é baseado em conceitos. Ou seja, quando alguém propõe compartilhar o sentimento de beleza, não pretende convencer os outros por meio da subsunção desse objeto (singular) em um conceito (universal). Por exemplo se digo que uma determinada forma é azul e circular, no juízo estético isso não significa que estou associando a propriedade, ou conceito, azul a uma forma circular. Assim, julgamentos acerca da beleza não podem, a despeito de sua validade universal, ser provados. Segundo Kant, não existem regras pelas quais alguém pode ser compelido a julgar uma determinada coisa bela. Essa é uma questão difícil no pensamento kantiano: como podem existir julgamentos universais que não são baseados em conceitos? Kant parece estar se movendo entre antinomias: sentimento de prazer, mas desinteressado, universalidade, mas sem conceito.
O que Kant procura é o específico do julgamento estético acerca do belo, distinguindo esses julgamentos daqueles baseados no simples prazer ou gosto.  Também Kant distingue os juízos acerca do belo dos juízos cognitivos. Em uma passagem mais adiante na Crítica da Faculdade do juízo, ao tratar das “antinomias do gosto”, Kant irá descrever a universalidade dos julgamentos acerca da beleza como um conceito em repouso, mais é “um conceito indeterminado”, portanto diferente da espécie de conceito representado nos juízos cognitivos. De qualquer forma, essa universalidade sem conceito será rejeitada por parte da modernidade, a qual procura trazer para a esfera da arte uma dimensão cognitiva de conhecimento do mundo.
No Terceiro Momento (§§10-17) da busca da especificidade do juízo acerca do belo, Kant diferencia esses julgamentos dos julgamentos acerca do Bem. Juízos acerca da beleza não pressupõem um fim [Zwech] que o objeto deva satisfazer ou alcançar. A “intencionalidade” [Zweckmässigkeit] dos juízos acerca do belo não se relaciona com o objeto visando obter dele um bem moral qualquer.
Discordo dos comentadores e analistas que vêem no juízo estético kantiano uma fundamentação moral ou ética. Esse terceiro movimento deixa claro a diferença entre os juízos acerca do belo e os juízos finalistas da intenção moral. O que atesta os movimentos analíticos em sua procura pela especificidade do juízo estético é o esforço kantiano em estabelecer uma autonomia para esse tipo de juízo. Assim, se existem enormes diferenças e críticas da estética moderna em relação à estética do belo kantiana, não resta dúvida que a busca da autonomia estética colocam lado a lado modernidade e a teoria do belo kantiana.
Existe uma semelhança entre o imperativo moral kantiano de tomar o homem com fim em si mesmo e não como meio e o juízo estético, pois ambos formulam o conceito de “valor-em-si”. Porém o valor-em-si ético pressupõe um finalismo, o homem como um fim; enquanto o valor-em-si do juízo estético pressupõe um prazer desinteressado, portanto não finalista.
No Quarto Movimento (§ 18-21) Kant acrescenta a idéia de necessidade para caracterizar a especificidade do julgamento acerca da beleza. A necessidade refere-se a dimensão da universalidade desses juízos. Sempre que eu emito um julgamento acerca da beleza de um objeto qualquer, espero que uma outra pessoa concorde com esse juízo. É claro que ao pretender que meus julgamentos sobre a beleza tenham validade universal, não pretendo que todas as pessoas percebam essa beleza a qual faço referência, mas pretendo que todos deveriam perceber. Trata-se do “dever-ser” que, eventualmente pode não estar presente, momentaneamente, no ser. Assim, os juízos acerca da beleza possuem uma dimensão pública, não são subjetividades privadas.
Após a analítica do juízo estético na qual Kant procura a especificidade do sentimento estético, resta a pergunta: como os juízos acerca da beleza são possíveis? A resposta de Kant a essa questão é complexa e exige a articulação das três críticas.
De forma resumida, podemos dizer que para Kant existem quatro faculdades principais no homem, as quais realizam a produção de conceitos e processos teóricos e práticos no que poderíamos chamar de “sistema da mente”. São elas: (1) a intuição sensível, que para Kant significa os mecanismos perceptivos e sensitivos (portanto diferente do uso que hoje fazemos dessa palavra); (2) o entendimento o qual é responsável por “trabalhar” os dados da experiência sensível, ou seja, da intuição, produzindo as idéias e os conceitos; (3) a razão que possui autonomia e a possibilidade de extrapolar, ir além da experiência sensível; (4) a imaginação, que possui a capacidade de sintetizar as percepções fornecidas pela intuição. Para Kant as percepções não são passivas elas são sintetizadas pela faculdade da imaginação. Assim, a imaginação tem um importante papel no sistema da mente. Ela esquematiza os conceitos do entendimento e os conecta com os dados da intuição sensível. A imaginação estética liga a sensibilidade com um modo de saber que não é apenas conceitual.
Em cada uma das três críticas kantianas existe uma determinada faculdade que se torna legisladora, coordenando as atividades das outras faculdades. Assim, na Crítica da razão pura, o entendimento é a faculdade legisladora coordenando as atividades das outras faculdades e, dessa maneira, o conhecimento científico é possível. Já na Crítica da razão prática, a razão torna-se a faculdade legisladora. Para Kant, a liberdade é o fundamento da ética e sua experiência está além da experiência sensível. A razão é a faculdade responsável pela lógica e pela orientação quando se trata de extrapolar o mundo sensível em direção ao mundo cultural e moral. Na Crítica da faculdade do juízo, não existe exatamente uma faculdade legisladora. A imaginação não pode cumprir esse papel. Então o juízo estético somente é possível graças a uma “harmonia” entre as faculdades, ou a um “livre jogo” entre elas. Nesse sentido, a Crítica da faculdade do juízo é o corolário da analítica das faculdades. É o “jogo livre” das faculdades que nos proporciona esse estranho “prazer-desinteressado” na fruição do que é belo.

Referências

KANT, Immanuel. Critique of Judgment, trans. Werner Pluhar, Indianapolis: Hackett, 1987.

KANT, Immanuel. Crítica da Faculdade do juízo, trad. Valério Rohden e António Marques – 2. ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

KANT, Immanuel. Crítica da razão pura, trad. Valério Rohden e U. Baldur Moosburger , com introdução sobre a vida e a obra de Kant por M. de Souza Chauí. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

São Paulo, 16 de Janeiro de 2011

Prof. Dr. Eduardo Cardoso Braga