A catarse eleva a consciência do particular para o geral

Chuva, estética e ensaio: Oswald de Andrade e a solidão.

Considero Oswald de Andrade um dos maiores poetas do mundo. Não só poeta, mas um pensador da cultura e da arte, ímpar e exemplar. Tanto em seu manifesto “Pau-Brasil”, como no “Antropófago”, Oswald elabora uma das mais conscientes estratégias de superação dialética do conflito local versus global, ou nacional versus internacional. Trata-se de absorver a cultura internacional não de forma acrítica e passiva, mas processá-la no atávico local, como afirma o início do manifesto “Pau-Brasil”:

A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos (…) O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança. (…)

A metáfora do antropófago é perfeita. Devora o inimigo e, com sua ingestão, um acréscimo de força surge na síntese entre o outro e o eu.

Estratégia semelhante foi usada por Kafka em sua literatura, a qual guarda a preocupação com uma literatura de minoria. Em vez de exaltar a língua local, Kafka submete a língua maior, do colonizador,  a um tratamento local. O alemão de Kafka balbucia, gagueja. A força discursiva e autoritária do império, torna-se vacilante, provocando um estranhamento e uma transformação pela síntese realizada em seu uso local.

A Forma e Estrutura dos poemas de Oswald de Andrade desvelam as estratégias modernistas. São colagens. Procedimento compositivo de influência cubista e da narrativa e linguagem cinematográfica. Não o cinema de Hollywood, mas a vanguarda européia (surrealismo, expressionismo, etc.) e, especialmente, o cinema soviético. Um exemplo significativo é o poema: “O Capoeira”:

– Qué apanhá sordado?
– O quê?
– Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.

O poema é perfeitamente uma cena de linguagem cinematográfica. Uma câmera registrando diversas perspectivas, como o olhar cubista.

Em sua Forma os poemas de Oswald de Andrade são como aqueles de Maiakovski. Desvelam o mundo fragmentado do contemporâneo numa luta caótica em busca de sua realização: a síntese representada e expressa pelo poema.

SOIDÃO | oswald de andrade

Chove chuva choverando
que a cidade de meu bem
está-se toda se lavando

Senhor
que eu não fique nunca
como esse velho inglês
aí ao lado
que dorme numa cadeira
à espera de visitas que não vêm

Chove chuva choverando
que o jardim de meu bem
está-se todo se enfeitando
A chuva cai
cai de bruços

A magnólia abre o pára-chuva
pára-sol da cidade
de Mário de Andrade
A chuva cai
escorre das goteiras do domingo

Chove chuva choverando
que a cidade de meu bem
está-se toda se molhando

Anoitece sobre os jardins
Jardim da Luz
Jardim da Praça da República
Jardim das platibandas

Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando

Chove, chuva choverando… Todos nós já dormimos gostosamente graças ao embalo do ritmo de uma leve chuva. Chuva é gostosa para dormir. Isso é o normal. Mas, para o poeta o normal torna-se extraordinário. Motivo de um espanto diante do banal. Desbanalizar o banal é uma das principais funções do sentimento estético.

O poema “Soidão” de Oswald de Andrade guarda uma estranha e estimulante ambigüidade. Fiel ao manifesto “Pau-Brasil”, a poesia se nos apresenta de forma “ágil e cândida”. “Como uma criança.” É o que poderíamos chamar de seu conteúdo manifesto. Porém, existe um outro conteúdo, o latente, o qual já se apresenta em seu título referindo-se à solidão.

Essa sensação de solidão, motivada pelas circunstâncias temporais, se aguça no meio do poema pela observação:

Senhor
que eu não fique nunca
como esse velho inglês
aí ao lado
que dorme numa cadeira
à espera de visitas que não vêm

Ao fim do poema, em seus versos derradeiros, o desvelar do sentimento se dá na tensão da linguagem minimalista com a profundidade da experiência:

Noite
Noite de hotel
Chove chuva choverando

O que é uma Noite de hotel, de que fala o poema? Quem já dormiu em hotéis sabe o que significa. Estranhamento. Algo que não é exatamente seu, mas você está lá, todo, plenamente. Sentimentos ambíguos. Bons e maus. Às vezes, é difícil dormir… Estou escrevendo esse post num domingo no qual ” A chuva cai / escorre das goteiras do domingo”, como expressa o poema. Estou na cidade de São Paulo, a mesma cidade de Oswald, que foi invadida por uma frente fria que faz chover num janeiro deserto. Meus sentimentos são parecidos com os de Oswald, uma certa melancolia atravessada por uma solidão. Entretanto, a leitura do poema transforma minha pequena subjetividade em uma consciência de algo maior. Todos os solitários se reúnem para constatar, e não mais simplesmente choramingar, a condição humana da solidão moderna. Nessa universalização a consciência atinge a dimensão do humano, daquilo que Aristóteles chamou de “zoon politikon” e Lukács “Ser-Social”. Essa experiência é a catarse que o velho Aristóteles dizia ser o objetivo da Tragédia Grega. A Tragédia tinha por função despertar esse sentimento de elevação da consciência, cujo movimento seria do particular para o universal, do indivíduo para a humanidade, do ser biológico para a Terra Gaia. Os solitários se irmanam e, de simples choramingas limitados, tornam-se expressões da Condição Humana. Tornam-se heróis trágicos. Obrigado Oswald de Andrade.

Referências


ANDRADE, Oswald. “Manifesto da poesia Pau-Brasil”. In: Correio da Manhã, 18 de março de 1924.
ANDRADE, Oswald. “Manifesto antropófago”. In: Revista de Antropofagia, Ano I, No. I, maio de 1928.
ARISTÓTELES. Poética. Porto Alegre: Globo, 1966.
DELEUZE, Gilles. Crítica e clínica. Tradução Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1997.
LUKÁCS, Georg. A teoria do romance: um ensaio histórico-filosófico sobre as formas da grande épica. Tradução José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Duas Cidades/Ed. 34, 2000.
TROTSKY, Leon. Literatura e revolução. Rio de Janeiro:  Zahar, 1969.

São Paulo, 15 de Janeiro de 2012
Prof. Dr. Eduardo Cardoso Braga

6 Comments

  • Comentários são sempre bem-vindos. Obrigado.

  • Que bacana o artigo, professor! Bem gostoso de ler!
    Já visitou a exposição “Oswald de Andrade – o culpado de tudo” no Museu da Língua Portuguesa?

    Beijos!

  • kátia, obrigado pelos elogios e dica de exposição.

  • francisca wrote:

    ProfessoraFrancisca R. Cavalcante.Fui guindada aos bancos da Faculdade de Letras, e depois, como professora de Literatura. Que saudade este poema de trouxe, Obrigada Mestre.Em Literatura, continuo aluna, mesmo depois de mais de 20 anos de aposentada. Ontem, estudei Drummond. Hoje, Oswald de Andrade.Amanhã, talvez Cecília, e, Bandeira, todos os dias.

  • Francisca, muito obrigado pelos comentários. Sou professor, como você. E também adoro Oswald de Andrade e Drummond. Oswald singelamente homenageado por esse ensaio. Drummond teve um enorme impacto na geração de poetas dos anos 60 e 70, como foi magistralmente analisado por José Guilherme Merquior. Abcs e saudações literárias.

  • Giovanna wrote:

    Adorei.

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