A estética kantiana e a beleza dos corpos sensualizados

Kant caracteriza a experiência estética como “contemplação desinteressada” e “sem conceito”. Mas, toda a experiência da beleza teria que ser necessariamente “desinteressada”? E a beleza sexualizada dos corpos, na qual temos acoplado um interesse de satisfação sexual? E a perversa necessidade de satisfazer a padrões e regras impostas culturalmente para a obtenção de um corpo belo? São todas questões que a estética kantiana tem uma resposta.
Algumas teorias estéticas fundamentam sua experiência em algum tipo de biologismo ligado às experiências de prazer, fuga da dor e preservação da espécie. Entretanto, é preciso lembrar que existe uma tradição que funda a experiência estética sem se utilizar de nenhuma questão biológica. Devemos lembrar também que a geração que viveu o nazismo sempre procurou desvincular tanto a ética como a estética de explicações com conteúdos biologistas. De fato, o nazismo sempre valorizou teorias que fizeram amplo uso do conceito de raça fundamentada no biologismo. Darwin insistiu, ao longo de toda a sua obra, na separação entre a teoria da evolução e a ética. Ele claramente previu os perigos de uma aplicação acrítica da teoria da evolução ao campo ético. A natureza não autoriza uma tal passagem lógica. Também, ao fim da vida, Darwin reclamou que estava sofrendo de um certo embotamento estético devido à necessidade de observar a natureza de um ponto de vista científico com seu rigor lógico e visada interessada.
Platão já havia tratado da questão dos corpos belos e sensualizados em sua obra Banquete. Ele vai propor uma ascese, uma elevação que vai do desejo dos corpos empíricos até à abstração da beleza. É a força de Eros que nos atrai para os corpos belos no sentido de satisfazer uma necessidade sexual. Porém essas belezas singulares quando contrapostas umas às outras geram a necessidade de uma beleza maior e abstrata. Assim os vários corpos belos em suas singularidades somente são belos por participarem dessa beleza maior e abstrata. A própria palavra “abstrair” tem o sentido de separar. Assim, podemos separar a beleza enquanto conceito de suas expressões empíricas. O processo de ascese funcionaria da seguinte forma: primeiro admiro e desejo um determinado corpo que me parece belo. Vejo essa mesma beleza em outros corpos que me provocam os mesmos desejos. A partir dessa multiplicidade, por uma reflexão intelectual alcanço a beleza, que é uma abstração. Assim, a beleza não está nos corpos, mas no conceito uno que se materializa nas multiplicidades dos corpos.
A solução kantiana é diferente da platônica, embora em ambas propostas não se apele para nenhum tipo de biologismo. No §16 da Crítica da faculdade do juízo, Kant vai diferenciar duas espécies de beleza: a beleza livre (pulchritudo vaga) e a beleza aderente (pulchritudo adhaerens), ou, em outros termos, uma beleza pura e uma beleza dependente. Para Malcolm Budd (1998) estas duas espécies de beleza estão fundamentadas em duas espécies diferentes de julgamento. Um julgamento de beleza livre é um julgamento singular (puro). Já, um julgamento de beleza dependente é um julgamento complexo composto por um julgamento puro seguido de uma avaliação do objeto no sentido de satisfazer alguma necessidade do sujeito, ou se adequar a algum tipo de padrão. Assim, a beleza pura não pressupõe nenhum conceito, ou padrão, o qual imponha um “dever-ser” ao objeto. Já a beleza dependente pressupõe um conceito, ou padrão, e a necessidade do objeto satisfazer esse padrão para ser considerado belo. Essa segunda espécie de beleza Kant a chama de beleza aderente exatamente pela necessidade do objeto aderir a um conceito para se tornar belo, tornando-se uma beleza condicionada. São objetos que estão sob o conceito de um fim particular.
Kant exemplifica com as flores, as quais chama de “belezas naturais livres”. Porém um botânico, por exemplo, pode acrescentar a essa beleza livre um juízo que compara a forma e cor de uma flor a uma função, por exemplo, reprodutora. Nesse momento deixamos de fruir a beleza livre e pura, para comparar a forma e a cor a um conceito ou a um fim determinado. É a aplicação excessiva dessa operação cognitiva que Darwin responsabiliza pelo seu embotamento estético.
Kant fornece outros exemplos: pássaros (o papagaio, o colibri, a ave-do-paraíso), uma porção de crustáceos do mar são exemplos naturais de belezas puras, ou belezas por si. Kant também fornece exemplos de belezas culturais puras: desenhos à la grecque, a folhagem para molduras ou sobre papel de parede, etc., por si não representam nada, não estão condicionadas a nenhum padrão de representação e são belezas livres. A música também pode ser uma beleza pura, desde que não procure representar ou narrar algum acontecimento.
Assim, pela distinção entre beleza livre (pura) e beleza aderente (condicionada) mostra-se que ao reconhecer a primeira, se profere um “juízo de gosto puro”, e a segunda, um “juízo de gosto aplicado”. Naturalmente que o juízo estético puro tem mais valor que o juízo estético condicionado. É essa busca da pureza, fundamental na estética de Kant, que boa parte da modernidade assumiu como projeto.
Corpos, cuja beleza nos atrai sexualmente, são, portanto, belezas condicionadas por duas razões. Primeiro por se acoplar ao juízo de beleza pura uma finalidade, que é a possível satisfação de um desejo, portanto de um interesse. Segundo, porque são belezas condicionadas a um determinado padrão, que no caso contemporâneo, torna-se um tipo de beleza perversa e opressora pela necessidade de se adequar a esse padrão. Para a estética kantiana, então, o juízo estético é totalmente independente do conceito de perfeição.
A beleza condicionada continua sendo um tipo de beleza, porém de segunda ordem, ou inferior, quando comparada à beleza pura. Além disso, ao aderir-se excessivamente à beleza condicionada pode-se acabar embotando a possibilidade de se alcançar a pureza do juízo de gosto desinteressado e independente de padrões.

Agradecimento: Mônica Ramos Tamonca (@tamonca) pela proposição da questão.

Referências
KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valerio  Rohden e António Marques. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
BUDD, M. “Delight in the Natural World: Kant on the Aesthetic Appreciation of Natura: Part I: Natural Beaty”. In: British Journal of Aesthetics, 38 (1998), pp. 1-18.

Print Friendly, PDF & Email

9 Comments

Post a Comment

Your email is never shared. Required fields are marked *