O Belo em Kant e a comunicabilidade do sentimento estético

Queremos investigar algumas questões sobre a estética em Kant. Para tanto, dividimos em dois pequenos artigos. O primeiro, que se desenvolverá aqui, tratará do conceito de belo em Kant. O segundo, em outro post, tratará do conceito de sublime, o qual pensamos ter enormes repercussões na estética contemporânea.

Em linhas gerais e de forma analítica, a reflexão filosófica sobre a estética pode tomar três grandes linhas de pesquisa.

A primeira linha é o que poderíamos chamar de “primado do objeto”. A questão é investigar quais as propriedades que tornam uma determinada obra bela. Obras, aqui, referem-se tanto a coisas materiais como imateriais, portanto a informação ou um poema são obras. A referência filosófica dessa linha são as ontologias estéticas como de Hegel ou Heidegger.

A segunda linha é o que poderíamos chamar de primado do processo. A questão é investigar por quais processos ou métodos podemos construir uma obra com a propriedade de ser bela. A ênfase recai sobre o fazer, a poiesis. A referência filosófica dessa linha é Aristóteles e sua Poética.

A terceira linha é o que poderíamos chamar de primado do sujeito. A questão é investigar a natureza do juízo estético do belo. Qual a relação que temos com uma obra para que possamos emitir o juízo de que ela é bela? A beleza, assim, não está na obra, mas no juízo de quem a pronuncia. A referência dessa linha é Kant e sua Crítica da Faculdade do Juízo.

O primado do sujeito é uma das questões que dificulta o entendimento de Kant pela contemporaneidade, a qual está mais preocupada em compreender a natureza estética dos objetos, tendo a arte como paradigma. Em Kant, a arte não é o paradigma para a reflexão estética, que é substituído pela Natureza. Por outro lado, a presença da Natureza como paradigma do que é belo ou sublime, faz renascer o pensamento estético de Kant no contexto da ética e estética ambiental. Também sua ênfase na relação entre sujeito e objeto, por meio do juízo, tem relações com as preocupações da estética contemporânea de uma arte contextual e um design centrado no usuário.

Como já vimos, ao deslocar o centro da existência da Beleza do objeto para o sujeito, Kant pretendeu superar as oposições metafísicas do realismo e do idealismo; os quais enfatizam ora um, ora outro, dos lados da equação sujeito versus objeto.

Em sua reflexão sobre os juízos estéticos, ou de gosto, Kant estabelece uma distinção radical entre os juízos estéticos e os juízos de conhecimento. Para Kant, os juízos de conhecimento emitem conceitos que possuem validez universal, ou seja, são universais por excelência. Eles se apóiam nas propriedades dos objetos. Por exemplo, quando digo: “Esta rosa é vermelha”, estou emitindo um juízo de conhecimento, pois estou apoiando-me na propriedade da cor do objeto. Este é um conceito válido para todos, universal, porque esta baseado nas propriedades objetivas da flor. Mesmo que alguém tivesse uma disfunção visual que não lhe permitisse ver as cores, ele seria afetado pelo mesmo comprimento de onda ou índice de refração de uma luz, dado que este é uma propriedade objetiva da flor. Somente, eu a chamaria vermelha e ele cinza, por exemplo.

Os juízos estéticos, ao contrário, não emitem conceitos. Eles são engendrados por uma reação pessoal do contemplador diante do objeto contemplado e não refletem as propriedades do objeto. Então, quando eu digo: “Esta rosa é bela”, não posso querer que este juízo seja universal, atinja a concordância geral. Ele somente exprime o fato de que a rosa me agrada. Assim, o conteúdo do juízo estético, para Kant, é a reação do sujeito, e não uma propriedade do objeto.

Kant, para caracterizar o conceito de belo, ou seja, o juízo estético, procede a uma série de diferenças. A primeira, já foi apontada acima. O juízo estético, ao contrário do juízo de conhecimento, não emite um conceito. A segunda é a diferença entre o juízo estético e o juízo sobre o agradável. Quando digo: “esta cerveja é boa” estou querendo dizer que sinto uma sensação agradável ao bebê-la. Trata-se de uma sensação de pura subjetividade. Já o juízo estético difere do simplesmente agradável e subjetivo. Quando alguém gosta de uma pintura não se conforma em que seja belo apenas para ela: quer que todo mundo goste também, quer compartilhar essa beleza. Por isso, quando estamos comendo uma pizza deliciosa, nos contentamos em apreciar a mesa, entretanto quando vemos um lindo pôr-do-sol corremos para mostrá-lo para os outros, queremos compartilhar o juízo da beleza, ou seja o juízo estético. Assim, quando dizemos “é belo”, não queremos dizer simplesmente “é agradável”, mas aspiramos a uma certa objetividade, a uma certa necessidade, a uma certa universalidade. Porém, ela é diferente de um conceito ou de um juízo de conhecimento, pois a pura representação do objeto belo é particular.

Assim, a objetividade do juízo estético não tem conceito. A sua universalidade é subjetiva, porém supomos que o nosso prazer é de direito comunicável ou válido para todos. Queremos que todos possam experimentá-lo. Trata-se portanto de um sentimento que é intersubjetivo.

A universalidade do prazer estético está fundada na absoluta possibilidade de comunicação do sentimento estético.

 Referências
Kant, I. Observations Sur Le Sentiment Du Beau Et Du Sublim. Paris: Vrin, 2000.
Kant, I. Critique of Judgment. Oxford: Oxford World's Classics, 2009.
Kant, I. Crítica da Faculdade do Juízo. São Paulo: Forense Universitária, 2005.

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