“Porém, se o sublime se funda no terror ou em alguma paixão análoga que tenha como objeto a dor, convém investigar, antes de mais nada, como algum tipo de deleite pode advir de uma causa tão oposta a ele.” Burke

Apontamentos sobre o conceito estético de sublime

Caspar David Friedrich,

Caspar David Friedrich, “Wanderer above the Sea of Fog”, 1818

A reflexão filosófica sobre a experiência estética permeia praticamente toda a filosofia ocidental de Platão às novas tendências filosóficas. Nesse longo processo houve momentos históricos de intensa reflexão sobre a natureza dessa experiência e momentos de desespero nos quais chegou-se mesmo a declarar a impossibilidade de qualquer declaração lógica e consistente sobre essa experiência subjetiva. Também as relações entre a arte e a estética tiveram diferenças ao longo dessa história. Por vezes a arte foi o lugar privilegiado, senão único e essencial, da estética, por vezes desempenhou um papel secundário e menor na definição e compreensão da experiência estética. Contemporaneamente a estética foi seriamente questionada pela arte conceitual enquanto experiência definidora do conceito de arte. O afastamento e mesmo recusa da estética pela arte conceitual abriu possibilidades de uma poética, séria e consistente, que se ancora no valores epistêmicos da arte, conceituando-a como processo e ideia em vez de objetos ou artefatos com propriedades formais.
Hoje, contemporaneamente, os estudos filosóficos sobre a experiência estética renasceram pela sua presença pervasiva no cotidiano. Trata-se de uma estética do dia a dia, dos objetos, informações e design, da cultura do consumo e da identidade dos pequenos grupos sociais. Novamente estamos num momento no qual a arte não é mais o objeto privilegiado da reflexão estética.

Em Kant temos duas estéticas a do Belo, na qual pode-se basear os estudos da estética do cotidiano, e a do Sublime, no qual aparece uma superação da estética em direção a uma experiência metafísica, ou seja, cujo significado está além dos sentidos e das experiências sensoriais.

Kant se interessou pelo conceito estético de Sublime. Seguindo sua metodologia e objetivos, tratava-se para ele de legitimar esse conceito, ou seja, em quais circunstâncias eu posso legitimamente experimentar o Sublime. Kant distingui duas formas de sublime: (1) o sublime matemático, simples, imenso e situado enquanto experiência no limiar do Belo, quando este perde sua proporção e torna-se infinito, sem proporção, sem Forma; (2) o sublime dinâmico, informal, selvagem, terrificante. Tanto um como o outro ultrapassam o homem, sendo no primeiro caso pela imaginação e no segundo, pela integridade física, revelando a esse homem sua dimensão espiritual. Tomemos por exemplo o sublime matemático que se traduz por um fracasso da imaginação. Para ilustrar esse fracasso, Kant evoca Savary que, em suas “Lettres d’Egypte”, explica a dificuldade de contemplar as pirâmides a uma justa distância. Descartes já havia estabelecido que existe uma correta distância do sujeito em relação ao objeto para que este possa ser conhecido. Kant assinala esse sentimento de impotência de sua imaginação para apresentar o todo. No caso das pirâmides, isso somente é possível a uma grande distância do objeto, cuja consequência é a perda da percepção do detalhe, da textura dos elementos que compõem essas pirâmides. A imaginação atinge seu máximo e no esforço para se ultrapassar, ela se abismo sobre si mesma, mergulhando numa satisfação comovente. Sofrimento e satisfação são os dois índices do sublime kantiano. Entretanto para legitimar o sublime, Kant o analise de um ponto de vista transcendental. Fonte de sofrimento e satisfação, o sublime não é somente a experiência que não pode ser imaginada, que ultrapassa a capacidade da imaginação, mas é também a experiência que nos revela nossa condição humana. A experiência do sublime nos coloca diante de um infinito, alguma coisa da ordem do noumenon, ou seja, a concepção intelectual de uma coisa como ela é em si mesma, não como é conhecido através da percepção. Isto se dá não porque a natureza é apreciada com medo na experiência do sublime em nosso julgamento estético, mas porque provoca em nós a força, que nos é própria, de observar como pequenos as coisas que nos inquietam e afetam, como os bens, a saúde e a vida. O sublime se constitui então na relação entre o que percebo e o que me ultrapassa, na relação entre sensível e inteligível, entre estética e filosofia. Essa experiência transcendental inspira uma espécie de respeito diante dessa força que nos é própria e que Kant a nomeia como liberdade.
Schiller sob a influência de Kant define de forma sintética a experiência do sublime. Nomeamos sublime a um objeto quando estamos diante de sua representação e nossa natureza física sente seus limites, ao mesmo tempo que nossa natureza racional sente sua superioridade, sua independência de todos os limites. Trata-se então de um objeto diante do qual somos fisicamente mais fracos, enquanto que moralmente nos elevamos acima dele pela capacidade de produzir ideias. Exemplos de experiências estéticas do sublime: o infinito, o que não possui forma, nem esquemas, o mar agitado, o céu estrelado, objetos de dimensões imensas, etc. Os fenômenos da natureza que podem nos ameaçar, tsunamis, tempestades, furações, avalanches. Nesse último caso, o observador deverá se sentir em um lugar seguro ao observar os fenômenos. São todos objetos e fenômenos que nos provocam medo e prazer, que superam as possibilidades de nossa imaginação. O sublime kantiano abre as possibilidades para a arte do século XX ir além da experiência estética baseada na Forma e atingir uma racionalidade, uma ideia que ultrapassa a dimensão sensorial. Um exemplo notável é a obra conceitual de Walter de Maria “Vertical Earth Kilometer”. Trata-se de uma escultura urbana pública e permanente, mas totalmente ao inverso. Não podemos vê-la; apenas imaginá-la a partir de um pequeno índice sensorial. Ela consiste de uma vara de bronze de cinco centímetros de diâmetro que se submerge na terra, no subsolo do Friedrichsplatz Park, em frente ao Kunsthalle Fridericianum, na cidade alemã de Kassel. O trabalho se configura como uma ideia que excita nossa imaginação para representá-la. Porém nunca poderemos ter a certeza que nossa imaginação representará corretamente o objeto. Ficamos na incerteza. Uma experiência que é um misto de prazer, pela imaginação excitada, e frustação, pela incerteza da representação mental. Em outros termos, uma experiência sublime que aponta para além da estética formal.

Walter de Maria,

Walter De Maria’s Vertical Earth Kilometer

Referências
BURKE, Edmund. Uma Investigação Filosófica sobre a Origem de Nossas Idéias do Sublime e do Belo. Campinas: Papirus, 1993.

KANT, Crítica da faculdade do juízo. Rio/São Paulo: Forense, 1993.

LYOTARD, Jean-François. Lições sobre a Analítica do Sublime. Campinas: Papirus, 1993.

SCHILLER, Friedrich : Sobre a educação estética do ser humano numa série de cartas e outros textos, Ed. IN-CM, s/d, Lisboa.

Dr. Eduardo Cardoso Braga
Setembro de 2015

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