“…há propriedades comuns a todas as coisas, cujo conhecimento abre ao espírito as maiores maravilhas da Natureza” Pascal

Print Friendly, PDF & Email

A Estética e sua Arché

Rigorosamente quando se fala de Estética devemos compreender alguns conceitos que foram desenvolvidos na Filosofia do século XVIII, tais como o conceito de sentidos, forma, beleza, harmonia e proporção. Em síntese a Estética nasce no século XVIII para explicar a possibilidade de um conhecimento obtido pelos sentidos em seu contato com as formas do mundo externo. Foi uma resposta a uma progressiva desvalorização dos sentidos na economia do conhecimento. Entretanto, de forma consciente, podemos expandir esses conceitos chaves e anacronicamente aplicá-los a outros tempos na tentativa de compreender o movimento de um pensamento histórico que se constitui por rupturas e continuidades. Certamente que anacronismos são sempre perigosos, porém podem ser utilizados por uma hermenêutica compreensiva que procura fundir horizontes culturais. No caso o horizonte cultural da Grécia Mítica e da estética contemporânea, herdeira dos conceitos desenvolvidos no século XVIII. Assim procedendo, busca-se compreender a estética e sua arché ou momento de nascimento.
Se observarmos a história da estética, concebida de forma ampla, podemos notar, em suas origens, uma mudança de uma dimensão ontológica para uma dimensão epistemológica. Para a Grécia Mítica e os filósofos pré-socráticos, a estética só pode ser concebida numa ordem ontológica, já para Platão e Aristóteles, trata-se de uma questão epistemológica.
A cultura clássica sempre concebeu a estética como beleza, mas em seu sentido metafísico, ou seja, uma realidade que é mais profunda e extensa que a própria estética e lhe serve de base.
Tanto os estudos comparativos das religiões como a antropologia cultural nos informam que o conhecimento de um mundo ordenado (cosmos) se construiu por meio de uma pervasiva dialética entre o sagrado e o profano. Trata-se de uma ontologia arcaica que depende de uma realidade sagrada, a qual suporta um mundo profano. Essa realidade veio à existência por meio de atos primordiais de criação.
De acordo com essa ontologia, o tempo histórico e linear tem uma importância secundária. O tempo sagrado é o cíclico, o tempo das origens, sustenta o mundo e a sua realidade profunda, num movimento cíclico de mortes e nascimentos. Alguns autores consideram que essa concepção de mundo aconteceu quando os homens tornaram-se eminentemente agricultores, refletindo a própria estrutura produtiva da natureza. Outros a consideram como uma estrutura lógica explicativa inerente ao processo de significação, sendo um arquétipo explicativo, um logos que dá significado ao mundo. Independente das explicações de suas origens, o fato é que o mito é uma forma de verdade-narrada sobre o sagrado e sobre o necessário ritual para acessar esse sagrado. Sem esse ritual o cosmos entraria em colapso mergulhando novamente no caos. Ritual é perigoso em si, porque, por meio dele, se estabelece contato com o sagrado, mas ele também isola e normatiza esse contato de acordo com fórmulas eternas e obrigatórias, as quais, caso não cumpridas, trazem consequências profundamente nefastas.
A Beleza, ou estética, entra nessa imagem cosmológica como uma expressão ou percepção da ordem. A contemplação dessa ordem cósmica torna-se uma experiência de extrema importância para os homens em geral e especialmente para os filósofos. Isso é valido tanto para os pré-socráticos como para Platão e Aristóteles. É nessa contemplação que posso conhecer a suprema verdade e o supremo Bem. Essa é a primeira e suprema teoria, no sentido puro e grego do termo, que significa contemplação. Trata-se então de uma contemplação de natureza estética. Essa ontologia então compreende um todo no qual estética (contemplação da beleza), epistemologia (teoria e verdade) e ética (supremo bem) estão indissoluvelmente unidas.
O cosmos enquanto ordenamento pode ser detectado nas relações matemáticas, especialmente na forma musical. A educação musical foi um dos mais importante itens na educação, (paidéia), da criança e do jovem grego. As principais propriedades da beleza são a harmonia e a proporção, ambas possuindo expressão matemática. Assim, nesse cosmos metafísico, a arte está subordinada ao mito, ritual e expressão musical. Conclusão, em sua arché, ou momento inaugural, a Estética, em sentido amplo e anacrônico, é uma forma de metafísica. A arte, então, está subordinada a outras esferas valorativas.

Tradição pitagórica

Tradição pitagórica – Originalmente a palavra harmonia significava juntar ou colocar junto.

 

Referências

BATAILLE, Georges. “Lascaux ou la naissance de l’art », In: Œuvres complètes IX. Paris: Gallimard, 1979.

ELIADE, Mircea. The Myth of the Eternal Return: Cosmos and History Translated by Willard Trask. Princeton: University of Princeton Press, 2005.

GRASSI, Emesto. Arte como Antiarte, a teoria do bela no mundo antigo. Sao Paulo: Livraria Duas Cidades, 1975.

GUTHRIE, Dale. The Nature of Paleolithic Art. Chicago: University of Chicago Press, 2005.

JÄEGER, Werner. Paidéia: A formação do homem grego. rad. Artur M. Parreira. 4ª Ed. – São Paulo: Martins Fontes, 2001.

Dr. Eduardo Cardoso Braga
outubro – 2015

Print Friendly, PDF & Email

No Comments

Post a Comment

Your email is never shared. Required fields are marked *