Beauty is a gift, and the man of taste is a happy man, a felix aestheticus

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A estética do sublime em Kant: alguns apontamentos

Kant escreveu três Críticas, é na chamada “Terceira Crítica” ou “Crítica da faculdade do juízo” (2008) que encontramos o que poderia ser nomeado como uma Estética. Essa obra, ao contrário das duas outras Críticas, não tem um foco claro. Kant se propõe examinar nossa faculdade do julgamento e, ao assim fazer, seu pensamento parece caminhar por uma série de questões desmembradas em atalhos e caminhos divergentes. A Terceira Crítica, assim, trata de assuntos relacionados à ciência, à teleologia e, o que mais foi assinalado pela posteridade, à estética.

Kant chama os juízos estéticos de “julgamentos do gosto” e observa que, embora sejam baseados nos sentimentos subjetivos de um indivíduo, eles também reivindicam validade universal. Ora, a afirmação parece então paradoxal, na medida em que tenta conciliar subjetividade e universalidade, conceitos que são logicamente opostos. Para resolver essa aparente antinomia, Kant inicialmente procura diferenciar os sentimentos oriundos da experiência estética e os outros possíveis sentimentos. Nossos sentimentos sobre a beleza diferem dos nossos sentimentos sobre o prazer ou a bondade moral. A diferença fundamental é que os sentimentos sobre a beleza são desinteressados. Isso significa que eles são avaliados em si mesmo e não como meio para se atingir alguma coisa fora deles. Os sentimentos de prazer e da bondade moral necessitam a existência de seus objetos; já, os sentimentos estéticos não necessitam da existência de seus objetos, ou seja, eles são puras representações. Buscamos possuir objetos prazerosos e buscamos promover a bondade moral, mas simplesmente apreciamos a beleza, sem sentir vontade de encontrar algum uso para ela. Assim, os julgamentos de gosto, ou estéticos, são universais porque são desinteressados, ou seja, nossos desejos e necessidades individuais não entram em jogo ao apreciar a beleza. É por isso que podemos dizer que nossa resposta estética se aplica universalmente. O prazer estético vem do jogo livre entre nossa imaginação subjetiva e nossa compreensão objetiva ao percebermos um objeto. Essa síntese entre subjetividade e objetividade é uma proposta de toda a filosofia kantiana, a qual permite a Kant superar as contradições presentes tanto no empirismo de Hume como no idealismo de Berkeley.

Kant distingue dois tipos de experiências estéticas: o Belo e o Sublime. Quando comparamos as explicações de Kant para as duas experiências, podemos notar que a experiência do belo tem uma formulação clara e rigorosa, dado que ele a concebe como uma experiência desinteressada e imediata. Essa imediatez faz com que a experiência seja perfeitamente compreensível, já que é fácil experienciar a beleza de uma flor ou uma bela paisagem. Porém, a experiência do sublime mantém um certo ar de mistério. Como exemplo dessa experiência, Kant aponta para fenômenos da natureza como o mar agitado, as nuvens em uma tempestade, a avalanche em uma montanha de neve, entre outros. O próprio Kant exemplifica no §28 da Terceira Crítica da seguinte forma:

“Rochedos audazes sobressaindo-se por assim dizer ameaçadores, nuvens carregadas acumulando-se no céu, avançando com relâmpagos e estampidos, vulcões em sua inteira força destruidora, furacões com a devastação deixada para trás, o ilimitado oceano revolto, uma alta queda-d´água de um rio poderoso etc. tornam a nossa capacidade de resistência de uma pequenez insignificante em comparação com o seu poder”. (Kant, 2008, p. 107)

No campo da arte, ele fornece dois exemplos: as pirâmides do Egito e a Igreja de São Pedro. Todos os exemplos são experiências com objetos grandes, poderosos e esmagadores. Eles excedem nosso poder de imaginação por seu tamanho e força. Eles são quase assustadores, e nos fazem conscientes de nossas limitações físicas em comparação com eles. Esses fenômenos e objetos de arte são sublimes devido ao seu tamanho e força. Além disso, eles parecem exercer uma certa violência a nossa imaginação pelo fato de transcendê-la. Lembramos que para Kant a imaginação está ligada aos sentidos sendo uma resposta esquemática e significativa para eles.

Enquanto uma escultura grega ou uma flor são imediatamente experimentadas como belos, o movimento das nuvens em uma tempestade ou um edifício sólido e oponente não são imediatamente compreendidos como sublimes. Essas experiências obrigam um alargamento da imaginação na busca de uma totalidade que lhe dê significado. Essa totalidade não está imediatamente dada, ela precisa ser concebida pela imaginação por um processo cognitivo que Kant chama de juízo reflexionante. Assim, podemos dizer que a sublimidade não reside nos próprios objetos, mas na razão humana que lhes fornece uma totalidade significativa e aponta para a experiência de uma liberdade presente em nosso ser. Mais ainda, podemos inferir que a experiência do sublime supera a relação cognitiva e fundamental entre sujeito e objeto, fundando uma nova forma de habitar e perceber o mundo da vida.

Sublime seria então a experiência estética que temos quando estamos diante de um objeto e nossa natureza sensível sente suas limitações para representá-lo, devido a sua grandeza, sua força e seu poder ameaçador. Entretanto, diante desse mesmo objeto, nossa natureza racional sente sua superioridade, sua liberdade, sua ausência de restrições. Somos inferiores fisicamente diante desses objetos, porém nos elevamos moralmente, isto é, por meio de ideias. Fica desvelado então nessa experiência nossa dependência e pequenez enquanto seres sensíveis, mas também se desvela nossa liberdade enquanto seres racionais.

O Sublime seria então uma relação de ameaça diante de uma grandeza ou poder, nos quais pressentimos uma potência capaz de nos destruir. É essa relação diante de uma grandeza que distingue o Belo e o sublime.

Kant distingue duas possibilidades da experiência do sublime: (1) o sublime matemático; (2) o sublime dinâmico. Em ambas possibilidades, a experiência do sublime consiste em um sentimento de superioridade de nosso próprio poder da razão sobre a natureza, mas não sem antes participar de uma experiência de medo, terror ou incompreensão diante da infinidade. Essa razão é uma faculdade de natureza supersensível (2008, §28).
O que distingue os dois tipos de sublime, matemático e dinâmico, são diferenças de combinação, composição e conexão. Há dois critérios para distingui-los: homogeneidade e necessidade. Uma composição é homogênea e não necessária, enquanto uma conexão é exatamente o oposto: não homogêneo, mas necessária.

Um objeto é sublime de modo teórico na medida em que traz consigo a representação da infinitude para cuja apresentação a faculdade da imaginação não se sente à altura. Um objeto é sublime de modo prático na medida em que traz consigo a representação de um perigo que nossa força física não se sente capaz de vencer. Teórica seria então um sublime matemático, enquanto o sublime prático seria o dinâmico.

No caso do sublime matemático, o sentimento de superioridade da razão sobre a natureza assume a forma da superioridade da razão em relação à imaginação, concebida como a capacidade natural necessária para a apreensão sensorial, incluindo a apreensão das magnitudes empíricas das coisas. Temos essa experiência quando somos confrontados com algo tão grande que supera a capacidade da imaginação para compreendê-lo. Em tal situação, a imaginação se esforço para compreender o objeto de acordo com uma demanda da razão, mas não consegue fazê-lo.
Segundo Kant:
“[…] sublime é aquilo em comparação com o qual tudo o mais é pequeno […] Mais precisamente pelo fato de que em nossa faculdade da imaginação encontra-se uma aspiração ao progresso até o infinito, e em nossa razão, porém, uma pretensão à totalidade absoluta como a uma ideia real, mesmo aquela inadequação a esta ideia de nossa faculdade de avaliação da grandeza das coisas do mundo dos sentidos desperta o sentimento de uma faculdade suprassensível em nós…” (§ 25, 2008, p. 94).

O Sublime kantiano matemático é aquilo que é absolutamente grande, magnitudo, grandeza que precede a própria quantidade (quantitas), que é uma categoria do entendimento.

A possibilidade do sublime indica a potência de sermos capazes, por meio da razão, de pensar o infinito como um todo. Isso indica a existência de uma faculdade da mente que supera todos os padrões do sentido (§26, 2008. p.98). Como exemplo desse sublime matemático, Kant menciona as pirâmides no Egito e a Basílica de São Pedro Em Roma (§26, 208, pp.98/99). Entretanto, Kant assinala que os melhores e mais apropriados exemplos de Sublime são da Natureza, ou seja, coisas naturais cujo conceito não envolve a ideia de um propósito para sua existência. Os animais estão descartados por possuírem a ideia de função biológica e, portanto, terem um propósito para a existência.

No caso do sublime dinâmico, o sentido de superioridade da razão em relação à natureza torna-se mais direto e claro. Kant diz que consideramos a natureza como “dinamicamente sublime” quando a consideramos como “um poder que não tem domínio sobre nós” (§28). O sublime dinâmico se manifesta quando experimentamos as forças naturais como terríveis, porém, por estarmos em uma posição de segurança, não temos medo dessas forças. Nesta situação, o irresistível poder da natureza certamente nos torna consideráveis como seres naturais, reconhece a nossa impotência física, mas, ao mesmo tempo, revela uma capacidade de julgar-se como independente da natureza e de uma superioridade sobre a natureza “pela qual a humanidade em nossa pessoa permanece intacta mesmo que o ser humano se submeta a esse domínio” (§28, 2008, pp.109/110). Os exemplos de Kant incluem falésias penduradas (A beleza de cidadezinhas e aldeias penduradas em penhascos), nuvens de trovões, vulcões e furacões (§28, 2008, pp.111/112).
No  caso  dos  objetos  associados  ao  medo  e  ao  terror – daquilo,  portanto,  que  Kant denomina “sublime dinâmico” – é necessária alguma distância, uma certa posição de segurança  do  sujeito  para  que  a  experiência  estética  se  mantenha  possível.  Esse princípio geral, usualmente admitido como um consenso, comporta, entretanto, muitas nuances nos diferentes sistemas filosóficos do período, e dos intérpretes contemporâneos de Kant. A tese kantiana apresentada na Crítica da faculdade de juízo argumenta que o perigo deve ser apenas produzido na imaginação. Podemos comparar a experiência do Sublime como a de um espectador que assiste um espetáculo cheio de terror no teatro, ou tem uma noite de pesadelos. Ao final da peça de teatro, ou ao acordar do sono, ele se sente aliviado, pois o horror passou-se somente em sua imaginação. Tratava-se de uma representação. Porém isso não quer dizer que não houve a experiência do medo ou do terror. Ela aconteceu, porém num outro tempo, espaço, numa representação que assegurou ao espectador sua sobrevivência e segurança física. Entretanto, a experiência trouxe um conhecimento, um acréscimo existencial. Atravessá-la conduziu o espectador para a reflexão de aspectos importantes da vida, sua fragilidade diante de certas forças, mas sua capacidade de pensar e adquirir conhecimentos experienciais mesmo nos momentos terríveis pelos quais passou. É essa dimensão da experiência estética do sublime que leva Kant a chamá-la de juízos reflexivos, ou pertencentes à imaginação, sendo contrários dos juízos determinantes, os quais sempre desencadeiam uma ação no mundo, como ocorreria no caso de uma pessoa em meio a uma tempestade, furação ou desastres naturais.

Um dos aspectos mais interessantes do Sublime kantiano é sua capacidade heurística para explicar muitas das experiências da arte contemporânea. A experiência do Sublime é uma relação com um fenômeno que nem pode ser chamado de objeto. Não é uma relação entre um sujeito e um determinado objeto, mas a superação dessas duas categorias, pois no Sublime o suposto objeto absorve o sujeito que se perde nele, que vai além de sua individualidade rotineira e de suas formas de agir e pensar na cotidianidade. Nessa experiência o ordinário torna-se extraordinário, a experiência amena, um choque de grandes proporções, que conduz a imaginação para processos mentais criadores de novas totalidades que expliquem os fragmentos temporais.

 

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Tempestade – Sublime Dinâmico

 

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Penhascos – Sublime dinâmico

 

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Pirâmides de Gizé – Sublime matemático

 

 

São Paulo, dezembro de 2016
Professor Dr. Eduardo Cardoso Braga

 

Referências

BURKE, E. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas idéias do sublime e do belo. Tradução de Enid Abreu Dobránszky. Campinas: UNICAMP, 1993.

KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valerio Rohden e António Marques, 2 ed.,  Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.

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SCHILLER, F. Textos sobre o belo, o sublime e o trágico. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1997.

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GUYER, P. “Kant’s Conception of Fine Art”. Journal of Aesthetics and Art Criticism, v. 52, n. 3 (Summer, 1994), pp. 275-285.

________. “The Psychology of Kant’s Aesthetics”. Studies In History and Philosophy of Science, v. 39, n. 4 (Jan, 2009), pp. 483-94.

RYAN, V. L. “The Physiological Sublime: Burke’s Critique of Reason”. Journal of the History of Ideas, v. 62, n. 2 (Apr, 2001), pp. 265-279.

VANDENABEELE, B. “Beauty, Disinterested Pleasure, and Universal Communicability: Kant’s Response to Burke”. Kant-Studien, v. 103, n. 2 (2012), pp. 207-233.

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